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Comunicação - Artigos de Opinião

Discurso do paraninfo no ato de colação de grau da 10ª turma do curso de filosofia do IFIBE


João Alberto Wohlfart
Professor de filosofia no IFIBE, doutor em filosofia (PUCRS), paraninfo da Turma 2014, que colou grau no Curso de Bacharelado em Filosofia do IFIBE no dia 18 de dezembro de 2016.


Cumprimento o Pe. Jandir Haas, provincial dos Missionários da Sagrada Família

Cumprimento o prof. Dr. José André da Costa, diretor geral do IFIBE, e em seu nome cumprimento todos os colegas da mesa.

Cumprimento o professor Me. Diego Ecker, amigo de longas jornadas, com quem partilho esta homenagem.

Cumprimento os pais e familiares dos formados, vindos de outras cidades e de outros lugares. O sucesso acadêmico na filosofia também se deve à vossa presença e apoio no processo da formação filosófica.

Cumprimento, especialmente, a vocês, agora formados em filosofia, meus queridos afiliados. Junto com o colega Diego, nos sentimos honrados e lisonjeados por esta homenagem e pela qual agradecemos imensamente. Vocês são o sujeito filosófico deste ato solene e a razão fundamental do ensino da filosofia.

Esta solenidade tem vários sentidos e motivações. O principal deles é a Pedagogia Filosófica. Agora não estamos mais polarizados na dualidade pedagógica de professor e aluno, mestre e discípulo, de quem sabe e de quem não sabe, de quem cobra e de quem é cobrado, mas a relação pedagógica se funde num ato educativo onde somos todos mestres e discípulos ao mesmo tempo. O ato de ensinar filosofia se inverte na aprendizagem filosófica e no processo de construção do conhecimento filosófico dos acadêmicos. A aprendizagem filosófica não caracteriza apenas um ato passivo de incorporação de conhecimentos já estabelecidos, mas aparece como principal referência de ensino aos que ensinam filosofia. A aprendizagem filosófica é a principal razão de ser do ensino da filosofia e dos que a ensinam. Os agora formados em filosofia têm muito a ensinar aos que somos os mestres no conhecimento filosófico e na habilidade de ensinar filosofia. E aos mestres do conhecimentos filosófico, a habilidade de ensinar filosofia se transforma no principal meio de aprendizagem filosófica.

A presença de vocês, queridos formados, ao longo destes três anos, no nosso Instituto de Filosofia, muito nos honrou e muito nos ensinou. A viagem epistemológica de vocês pelo universo filosófico desafiou muito o nosso exercício de ensinar filosofia e proporcionou múltiplas aprendizagens filosóficas. A nossa condição de mestres e de professores de filosofia é consolidada como espaço pedagógico, no qual nos transformamos em alunos dos alunos, discípulos dos discípulos. E a vossa condição de alunos, aprendizes e acadêmicos é consolidada no espaço pedagógico no qual vocês se transformam em professores dos professores, mestres dos mestres, ensinantes dos que ensinam, e por mais paradoxal que possa parecer, mais sabedores dos que mais sabem. Com esta solenidade, em diferentes graus, todos somos simplesmente filósofos e desafiados pelos desafios da filosofia ao mundo e pelos desafios do mundo à filosofia.

Esta solenidade também tem um componente epistemológico. Celebramos a habilidade do conhecimento filosófico construída ao longo destes três anos, através de múltiplas disciplinas, professores, atividades e componentes curriculares. Aqui cada um conhece o seu próprio caminho empreendido e como chegou até aqui. O caminho do conhecimento filosófico não é marginal e exterior à filosofia ela mesma, mas aparece como componente fundamental do ato do conhecimento filosófico. Jamais podemos dizer que sabemos filosofia, mas somos eternos aprendizes e eternos sujeitos do conhecimento filosófico. A epistemologia filosófica não se inspira mais na velha dicotomia entre sujeito e objeto e nas correntes filosóficas representativas de uma ou outra polaridade. Ela caracteriza o próprio processo de autoconstrução e auto-organização da filosofia. Na construção de qualquer saber, há um conhecimento filosófico implícito, e em qualquer conhecimento que o homem é capaz, ele se conhece filosoficamente a si mesmo.

Esta solenidade também está revestida por uma significação ética. O conhecimento filosófico não é neutro, como também não é neutro nenhum conhecimento. A neutralidade é defendida pela elite burguesa dominante. Todos os conhecimentos são historicamente situados e estão comprometidos com diferentes projetos de sociedade. A conclusão do Curso de Filosofia é inseparável da formação de um conhecimento crítico e reflexivo, diante da tendência política e midiática que mediocriza e infantiliza a inteligência. A Filosofia é inseparável do compromisso com a transformação da sociedade, com a construção de relações humanas mais fraternas, com a desconstrução de ideologias que manipulam e alienam as pessoas. A filosofia tem como força impulsionadora a contradição na desconstrução de pensamentos que representam a classe dominante, na crítica de interesses que massificam e alienam as pessoas, e na desconstrução dos interesses econômicos velados e veiculados pela grande mídia. O filósofo deve estar preocupado com as classes menos favorecidas e excluídas da sociedade e perguntar-se pelas causas, desdobramentos e estruturas sociais que produzem estes fenômenos.

A conclusão do Curso de Filosofia é inseparável da crítica social. Em tempos de profunda crise antropológica, política e econômica e ética retornam mentalidades conservadoras que se disseminam na profundidade e complexidade do tecido social, devorando-o em todas as suas dimensões. Este movimento é tão forte e tão intenso que requer uma consciência crítica filosoficamente esclarecida para distanciar-se dele. Se não estamos criticamente atentos, caímos na sua armadilha. Mentalidades que pensávamos definitivamente superadas, estão de volta com toda a força e dominam as conversas entre as pessoas. Fundamentalismos religiosos tornam as religiões autoritárias e instrumentos privilegiados do poder dominante. Ódios raciais e sociais destroem a sociedade por dentro. Arquitetados por poderosos grupos econômicos internacionais e por poderosas empresas midiáticas, uma pequena elite econômica tenta excluir uma sociedade inteira através do preconceito e do ódio. Há moralismos e maniqueísmos sociais arquitetados por uma minoria que se considera justa e perfeita, contra uma grande maioria condenada como vagabunda e excluída. Num momento histórico em que os menos privilegiados da sociedade começaram a ocupar espaços antes exclusivamente reservados aos mais privilegiados da sociedade, isto incomodou e enfureceu aos que sempre dominaram.

Esta solenidade também tem um viés político. A conclusão do Curso de Filosofia coincide com um ano peculiar de nossa história. Quando pensamos há muito tempo “ditadura nunca mais”, irrompe uma nova e cruel ditadura em nosso país. Um grupo de bandidos políticos tomou o poder de assalto, rasgaram o Pacto Social estabelecido na Constituição Federal de 1988, acabaram com a Democracia e o Estado de Direito e transformaram as instituições democráticas em meios de criminalização dos movimentos sociais e das minorias. As instituições políticas diretamente responsáveis pela guarda da integridade da Constituição Federal e da Democracia, são as primeiras que as violam e destroem.

Novamente recai sobre nós o imperialismo do norte e do capitalismo internacional. Os acontecimentos políticos que vimos durante este ano têm tudo a ver com uma nova onda de domínio geopolítico internacional, especialmente concentrado em cenários de recursos naturais ainda disponíveis. Os meios de comunicação não dizem, mas as nossas riquezas, ecossistemas e recursos naturais estão sendo entregues para grandes corporações capitalistas internacionais. O norte do planeta e o centro do mundo já esgotaram os seus recursos energéticos. Agora o alvo da exploração somos nós. A mão invisível do capital já se apropriou do pré-sal, está de olho no aquífero guarani, nas águas da Amazônia, nos solos agrícolas, nos recursos energéticos, nos recursos minerais, na mão de obra barata.

Jamais pensamos que pudesse acontecer o que vimos durante este ano. O projeto neoliberal, imposto pelo primeiro mundo e pelo capital internacional, está destruindo a economia, a política, a sociedade e os ecossistemas naturais. Em pouco tempo foi dissolvido um universo de conhecimentos científicos, destruiu-se um parque de tecnologia e de engenharia. Parece que é eternamente proibido desenvolver ciência e tecnologia na América Latina. O filósofo deve ter um olhar crítico e vigilância epistemológica diante destas realidades. Como filósofos, sempre zelem pela consciência crítica, pela ética e pelos direitos humanos. Jamais se submetam à ideologia do poder dominante, vulgarizada no senso comum e nas conversas entre as pessoas.

Muito obrigado por estarem conosco nestes três anos. Obrigado pelas experiências filosóficas partilhadas e pelos conhecimentos construídos. Foram e são um grupo diferenciado e qualificado. Impulsionados pelas vivências e conhecimentos filosóficos, continuem o processo formativo em outros níveis de ensino. Jamais deixem apagar a chama da racionalidade filosófica que construíram nesta importante e fundamental etapa formativa. Sejam filósofos na vida acadêmica, intelectual e profissional. Sejam filósofos na leitura e interpretação dos acontecimentos e do tempo histórico. Parabéns por esta privilegiada conquista. Sempre em atitude e postura filosófica. Muito obrigado.


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