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Comunicação - Artigos de Opinião

Karl-Otto Apel: In Memoriam


Paulo César Carbonari
Doutor em filosofia (Unisinos), Mestre em filosofia (UFG), professor no Instituto Berthier (IFIBE), militante de direitos humanos (CDHPF/MNDH), trabalhou a ética de Apel no mestrado e publicou o livro “Ética da responsabilidade solidária: estudo a partir de Karl-Otto Apel” (Passo Fundo: IFIBE, 2002).

 

No dia 15 de maio de 2017, aos 95 anos, morreu em sua casa, na região de Hessen, Alemanha, Karl-Otto Apel, filósofo, nascido em Dusseldorf, Alemanha, em 15 de março de 1922. Sua vida foi dedicada à filosofia crítica como professor na Universidade de Kiel, onde iniciou, e na Universidade de Frankfurt, onde se aposentou, em 1990.

Apel foi responsável pela construção de uma proposta de “Transformação da Filosofia”, aliás este é o nome de sua mais conhecida obra (de 1973, traduzida no Brasil pela Loyola), na qual advogava a fundamentação crítica última de uma filosofia primeira linguisticamente mediada. A rigor, sua construção se deve ao encontro profundamente transformador que ele promove entre a filosofia kantiana e a pragmática peirceana, de modo que o eu transcendental kantiano, responsável pela síntese transcendental, passaria a dar lugar a uma comunidade de comunicação (ideal e real), na qual se daria o acordo linguisticamente mediado pela prática do melhor argumento.

A nova filosofia primeira faz nascer também uma proposta ética, conhecida como “ética do discurso” ou também como “ética da responsabilidade solidária”. Nela diagnostica o nosso tempo que, segundo ele, tem como marca central a proeminência da ciência e da tecnologia que, em nome do objetivismo, afastam a ética a parâmetros subjetivistas, sem força universalista. Ele diagnostica uma situação paradoxal que caracteriza da seguinte maneira: “[...] de um lado, a carência de uma ética universal, isto é, vinculadora para toda a sociedade humana, nunca foi tão premente como em nossa era, que se constitui numa civilização unitária, em função das consequências tecnológicas promovidas pela ciência. Por outro lado, a tarefa filosófica de uma fundamentação racional de uma ética universal jamais parece ter sido tão complexa, e mesmo sem perspectiva, do que na idade da ciência. Isto porque a ideia de validez intersubjetiva é, nesta era, igualmente prejudicada pela ciência: a saber, pela ideia cientificista da ‘objetividade’ normativamente neutra ou isenta de valoração” (TdF II, 359). Ou seja, “uma ética universal, i. é, intersubjetivamente válida, de responsabilidade solidária, parece [...], ser ao mesmo tempo necessária e impossível” (TdF II, 363). Superar este paradoxo e oferecer uma proposta capaz de afirmar uma norma ética com validade universal e que seja a condição de todo processo argumentativo e também produto dele foi seu empenho mais ardente. Entre as obras nas quais trata deste tema está “Discurso e Responsabilidade” (1988, traduzida em Portugal).

Uma das principais características de sua proposta filosófica é, além da defesa do diálogo, sua realização efetiva. Entre os mais produtivos e influentes diálogos está a estreita colaboração critica entre ele e seu colega Jürgen Habermas. Além desta está seu diálogo com filósofos do terceiro mundo, conhecido como “Diálogo Norte-Sul” do qual participaram vários filósofos latino-americanos, entre os quais Enrique Dussel, expoente da filosofia da libertação.

Acima de tudo, o filósofo Karl-Otto Apel ensinou que o filosofar é uma construção em diálogo profundo com a realidade na qual se vive e com a tradição filosófica. Quando postas em relação, haveriam de resultar na transformação tanto da filosofia quanto da realidade. Uma filosofia que não transforma não valeria a pena, diria Apel parafraseando a orientação socrática.


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