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Comunicação - Artigos de Opinião

Vidas abandonadas


Ésio Francisco Salvetti
Doutor em Filosofia. Professor de Filosofia no IFIBE

Atualmente, a chamada “geração x”, nascida na década de 1980, nos países desenvolvidos, experimenta sofrimentos desconhecidos pelas gerações anteriores. Um indicativo é o alto índice de depressão que atinge esta geração. O provável diagnóstico é o desemprego ou a baixa expectativa de trabalho para os recém-formados, que ingressam no mercado que, por sua vez tem como única preocupação aumentar os lucros.

Conforme descreve o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o desemprego criou uma parcela gigante de “redundantes”, de seres desnecessários, denominado por Giorgio Agamben de homo-sacer.

O mais emblemático é que quem “perdeu o carro do progresso” (não se inseriu no mercado de trabalho) está cada vez mais afastado de “nosso meio”, e as trilhas que poderiam levá-los de volta se apagam com o passar do tempo.

Somado a isso, vivemos um fenômeno que podemos chamar de “mal-estar da democracia contemporânea”, uma democracia esvaziada de povo, claramente, uma política a serviço do mercado, que a qualquer menor sinal de organização, que tenta enfrentar sua atual conformação é tomada por medidas autoritárias. Por isso o filósofo Giorgio Agamben pode afirmar que entre democracia e totalitarismo há uma contiguidade.
Seria tolice pensar que os “grandes ricaços” necessitam do Estado de Direito Democrático quando são eles que, de fato, fazem os processos econômicos e políticos em seu proveito.

Sobre essa tese, o estudo lançado pela Oxfam, em 16 de janeiro de 2017 é claro: o patrimônio de apenas oito homens é igual ao da metade mais pobre do mundo e 1% da humanidade controla uma riqueza equivalente à dos demais 99%. Este é o Estado de Direito Democrático que temos e que diz buscar a efetivação da justiça social. Esses dados são importantes até mesmo para compreendermos as causas e significados da violência e da criminalidade.

Hoje, os teóricos do campo da criminologia tendem a consensuar que a violência e a criminalidade são frutos da desigualdade social. Países na qual a desigualdade foi superada os índices de violência caíram significativamente.

Esses dados do relatório de Oxfam revelam a impotência do Estado frente à economia. O engraçado é que o Estado é fraco como instância de decisão e formulação de políticas, mas forte como gestor de população (biopoder), como dispositivo de controle social.

De um lado temos o Estado máximo na economia e mínimo na política. Esta é a chamada “racionalidade neoliberal” que silenciosamente trabalha para neutralizar as práticas verdadeiramente democráticas. Nessa perspectiva, toda organização popular que luta por direitos é encarada pelo mercado (o verdadeiro soberano), como ameaça que precisa ser contida, eliminada.

O engraçado é que essa racionalidade ganha adesão até mesmo dos pobres por conta da utilização de sofisticadas técnicas de manipulação de informações, o que não seria possível sem o contributo da grande mídia que, por óbvio está a serviço do capital financeiro.

O progresso, que na modernidade nasceu sob o slogan de mais felicidade para o maior número de pessoas, atualmente, na mão do mercado, revela a necessidade de menos pessoas para manter o movimento e atingir o topo. É compreensível que a “geração x” sofra de depressão. É claro que interessa ao mercado que uma parcela desses sujeitos fiquem para trás.

Como descreve Richard Rorty, a preocupação do mercado é que haja um número suficiente de lixeiros e coletores de dejetos que nosso modo de vida produz todo o dia, ou um número suficiente de pessoas que sujem suas mãos limpando nossas privadas. Diante desse contexto cabe ao intelectual desvelar o caráter ideológico e os interesses que se nutrem dos processos sócio-econômico.


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