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Comunicação - Artigos de Opinião

Educação libertadora como educação da práxis


Marcos Arruda
Educador Social do PACS, Rio de Janeiro. Atuou como educador no Curso de Especialização em Educação Popular. O texto é a mensagem enviada para os/as educandos/as por ocasião do seminário final do curso realizado no dia 21 de outubro de 2017. Agradecemos ao professor pela gentileza.


1. PREMISSAS

1) Somos todos interconectados entre nós e com todas as formas de vida do Planeta e do Cosmos; somos, portanto, solidários por natureza, isto é, o que afeta o Outro Ser, nos afeta e o que fazemos a qualquer fio da teia da vida, fazemos a nós mesmos (Chefe Seattle).

2) Somos seres em construção, em evolução, e não seres acabados; portanto, seres em contínuo e ininterrupto processo de educação, consciente o não.

3) A Vida nos entregou a consciência reflexiva, que faz de nós “a crista da onda evolutiva da vida terrestre” (P. Teilhard de Chardin).

4) Com a consciência reflexiva, a Vida nos deu o poder e a responsabilidade de promover e manter o ambiente propício à evolução da própria vida terrestre, assim como ao desenvolvimento sempre mais pleno dos nossos potenciais, qualidades e atributos humanos, enquanto indivíduos, comunidades, povos e espécie.

5) Somos seres ao mesmo tempo naturais e transcendentais, individuais e sociais, atuais e históricos, cuja natureza se faz pelas constelações de relações que nós somos; o que nos une são laços de amor e comunhão, posto que somos filhas e filhos da mesma Mãe-Terra e do mesmo Pai-Cosmos e compartilhamos o mesmo destino enquanto membros da Casa Comum.

6) Somos igualmente dignos perante a Vida; portanto, temos todas e todos o mesmo direito a Viver Bem e a gozar de tudo que promove nossa felicidade individual e coletiva.

7) Mas o fato de sermos relações, e de sermos naturalmente solidários não basta para que nos relacionemos de forma solidária e amorosa entre nós e com o mundo – cabe-nos fazer de nós seres conscientemente solidários, e a condição é que, em cada escolha, acolhamos o Outro Ser não como projeção de nós próprios, mas sim enquanto autêntico Outro no linguajar, no conversar, no conviver, no compartilhar (H. Maturana).

8) O caminho a seguir para o sempre mais pleno desenvolvimento dos nossos potenciais exige a educação para a autogestão do caminhar de cada um, pessoa e coletividade.

9) A autogestão requer o reconhecimento de que ninguém liberta ninguém, nem ninguém se liberta sozinho; nós nos libertamos em comunhão entre nós e com as forças da vida (Paulo Freire).

10) A educação libertadora é aquela que busca superar as dependências, os medos, a desconfiança de si e do Outro, a carência de autoestima, o apego à própria verdade, ao ego da segurança e da certeza.

 

2. EDUCAÇÃO LIBERTADORA: EDUCAR PARA A AUTOGESTÃO

2.1. São muitas as cadeias que negam nossa liberdade. Há cadeias objetivas, como as desigualdades de renda, riqueza, conhecimento e poder, a dependência em relação a um salário e a um empregador, a subordinação a autoridades plutocratas, despóticas, fascistas; e há cadeias subjetivas, como os traumas psicológicos, a arrogância, a cobiça, a desesperança, a depressão, a alienação (pensar com a cabeça alheia, ter como referência os valores do outro), a falta de sentido da vida.

2.2. Tornar-se sujeito do seu próprio desenvolvimento significa aprender a pensar com a própria cabeça, sentir com o próprio coração, construir-se e construir o mundo com seu próprio pensar, sentir e agir. Estes são os fundamentos da autogestão, que se aplicam a cada pessoa (autogestão da própria saúde e de todos os atributos e dimensões do seu ser pessoal), a cada comunidade (família, comunidade de trabalho, território), e às sociedades humana (noosfera) e natural (biosfera).

2.3. A questão-chave da educação (e-ducere = conduzir para fora [de si]) é o que eu chamo de TRANSEDUCAR (conduzir para além de si e dos seus limites): “quem conduz quem? Para onde?” Lembro-me de Paulo Freire dizendo que a melhor definição de educação é “apoiar os educandos e educandas – que somos todas e todos nós - no processo de ir sempre mais além de si mesmos e do seu saber”. A questão-chave da educação é, portanto, política: quem deve ter o poder de gerir seu caminhar individual e coletivo? A autogestão é, assim, a chave de uma governança libertadora.

 

3) ALGUMAS FORMAS DE EDUCAÇÃO LIBERTADORA

3.1. Educadores como José Pacheco defendem uma educação para a autogestão, tomando a convivência escolar e social como as fontes do saber, e a pesquisa em grupo, participativa, guiada pela e pelo professor, como a metodologia mais adequada para as e os educandos se apropriarem do conhecimento acumulado e, ao mesmo tempo, desenvolverem a consciência crítica e a capacidade de construírem novos conhecimentos. Para Pacheco tal educação conduz as e os estudantes à superação das dependências e à crescente autonomia de pensamento e ação. A convivência deles em comunidades de aprendizagem os torna capazes de cooperar no desenvolvimento dos seus potenciais individuais e coletivos.

3.2. As escolas Waldorf são outro espaço que realiza educação libertadora, ao partir da premissa de uma compreensão holítica do ser humano, integrando, pois, o desenvolvimento físico, artístico, intelectual e espiritual das e dos alunos (Rudolf Steiner). Esta abordagem educativa visa o desenvolvimento integral dos indivíduos, tendo o direito às liberdades pessoais e sociais como objetivo, gerando cidadãs e cidadãos competentes, social e moralmente responsáveis. A autonomia de professores e alunos na determinação do currículo, da metodologia e do modo de governança faz parte da educação libertadora promovida por essas escolas.

3.3. A Educação para a Liberdade, desenvolvida por Paulo e Elza Freire, envolvendo uma metodologia criativa de alfabetização e educação de jovens e adultos, traz em si conceitos de valor universal, na forma de Pedagogia do Oprimido. Na visão de Paulo Freire, a opressão é um fenômeno singular, tendo duas dimensões indissociáveis: a da opressão por fatores externos, como a escravidão, as relações capitalistas de produção, o trabalho explorado, a violência de gênero, etc., e a da opressão interior, como o conformismo, a alienação, a dependência, o apego, a submissão. O despertar da consciência crítica (Gramsci) através das diversas formas de educação libertadora cria condições subjetivas para que o sujeito se motive para a ação transformadora. Freire não promove a ilusão de que a dimensão teórica e subjetiva da educação liberta por si só. A Filosofia da Práxis lança um desafio unitário: “A doutrina materialista sobre a mudança das circunstâncias e a educação esquece que as circunstâncias são mudadas por seres humanos e que é essencial educar o próprio educador. A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana ou a autotransformação pode ser concebida e racionalmente entendida somente como prática revolucionária (Marx. III Tese sobre Feuerbach). O conceito de práxis, aprofundado mais tarde por Gramsci, não permite dissociação entre prática e teoria. A práxis é a matriz da teoria e da própria transformação da pessoa e da sociedade. Só a ação transformadora, informada pela consciência crítica, liberta. Por isso, não pode haver doutrina definitiva sobre a realidade – e creio que foi neste sentido que Marx se declarou “não marxista”. E por isso também é preciso educar o educador, pois seu saber tampouco é definitivo, e o teste deste saber é a práxis, e não só a fala e o pensamento.

 

4) EDUCAÇÃO LIBERTADORA COMO EDUCAÇÃO DA PRÁXIS

Tudo isto converge no desafio maior da educação libertadora: a construção de consciência crítica que se converta em ação transformadora de si e do mundo. Portanto, educação que parte da prática social e do indivíduo (pois o Homo é um indivíduo social), constrói consciência crítica e se desdobra em ação transformadora. Educação libertadora como aquela que promove as condições para que cada educando se transforme em sujeito do seu próprio desenvolvimento individual e coletivo, em todas as suas dimensões. A isto eu chamo de autogestão libertadora. Libertação como superação das dependências e gestão consciente e crítica das interdependências que constituem a existência social dos humanos. Libertação como realização do direito humano mais fundamental, o direito à vida digna enquanto ser humano; o direito ao Bem Viver* e à felicidade compartilhada; o direito a ser sujeito do seu próprio caminhar na existência terrena; o direito de amar e ser amada e amado, sem o qual não há felicidade individual nem coletiva.

 

5) DESAFIOS

Os tempos de escuridão e crescente opressão que o Brasil vive hoje sob o regime da ditadura civil Temer/Meirelles levantam um desafio particularmente difícil para nós, educadores da libertação. Por um lado, reconhecemos a clivagem promovida pelos donos do capital entre os que vivem de renda (rentistas) e os que garantem sua sobrevivência através do seu trabalho. Há uma consciência crítica latente na população que vive do seu próprio trabalho. Mas as condições objetivas estão impedindo que esta consciência crítica latente emerja na forma de ações que derrubem do poder do Estado a quadrilha de políticos e empresários que privou o Brasil de um governo eleito democraticamente. Os direitos humanos individuais e sociais estão em risco de desaparecer do corpo jurídico fundado na Constituição cidadã de 1988. Os profissionais da educação, em todos os níveis, sobretudo os da educação pública, estão em processo de proletarização. Nestas condições históricas, como pode a educação influir na expansão da consciência crítica e na sua expressão como ação revolucionária?

 

(*) Os 13 princípios do Bem Viver, segundo a tradição dos povos andinos, são:

1) saber nutrir-se do que é saudável;
2) saber beber, favorecendo o fluxo da vida;
3) dançar no ritmo do Universo;
4) saber repousar, dormir de um dia para o outro;
5) saber trabalhar com alegria;
6) saber calar-se e buscar o silêncio meditativo;
7) saber pensar, em conexão com o coração e o espírito;
8) saber amar e ser amada/o;
9) saber ouvir-se, ouvir os outros e a Mãe Terra;
10) saber falar de modo construtivo;
11) saber sonhar com uma realidade melhor;
12) saber caminhar acompanhado das boas energias; e
13) saber dar e receber.


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