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Comunicação - Artigos de Opinião

ALEGRIA - As ruas voltam a ser o lugar da política outra!?


Paulo César Carbonari
Doutor em filosofia (Unisinos) e professor de filosofia (IFIBE), militante de direitos humanos (CDHPF/MNDH)


Ainda vão me matar numa rua./Quando descobrirem, /principalmente,
/que faço parte dessa gente /que pensa que a rua/é a parte principal da cidade
(P. Leminski, Quarenta clics em Curitiba (1976), Toda poesia, 2013, p. 24)


O Brasil começa a última semana que antecede ao primeiro turno eleitoral de 2018 imerso numa realidade da qual haverá de emergir diferente se quiser se inserir de outro modo no futuro. O fato, apesar de todos os “fakes”, é que 29 de setembro de 2018 entra para a história política brasileira como a abertura da primavera das muitas cores, a primavera inaugurada pelas mulheres. Foram milhões em cada canto do País, nas capitais, em cidades grandes e médias, e até em algumas pequenas. Em cada, uma a assembleia pública se fez a seu modo. Céli Pinto, autora do livro “Uma história do feminismo no Brasil”, professora de História da UFRGS, diz que foi “a maior manifestação de mulheres na história do Brasil”. Ela também disse que “#EleNão virou um significante cheio de significados”. Reconheceu que “O movimento não é só das mulheres. É um movimento humanitário. É a favor da diferença”1 A rua, a diferença e a diversidade marcaram profundamente o sábado e abrem alento de exercício político noutras perspectivas.

Uma dia de expressão das diversidades que fazem a realidade social, política e cultural, a diversidade humana do Brasil. As mulheres chamaram; mulheres, homens, LGBTIs, jovens, crianças, velhos, adultos, enfim, toda a gente, gente de todo tipo, todo tipo de gente e mesmo gente sem tipo algum atenderam. Nos atos conviveram dirigentes de organizações populares de há muitos anos com jovens e adolescentes de “primeira mobilização” que se revezavam na organização, na orientação, nas falas. O mais expressivo foi ver as mulheres – as jovens, especialmente – serem as protagonistas. Mas um protagonismo de novo tipo, um protagonismo que não veio para “representar” e nem para substituir e sim para acolher, cuidar.

Havia um único chamado que fez convergir para ele as muitas diversidades, #EleNão, numa referência objetiva, ainda que pronominal, ao sujeito “inominável” que está na dianteira das pesquisas e ameaça com suas propostas os/as sujeitos/as concretos, sobretudo aqueles/as que sempre foram mais atacados/as pelas maiorias que sobre eles/as se assentam e deles/as sempre se assenhorearam. Ainda assim, os palcos foram muitos, já que não houveram palanques e nem som superpotentes. Palavras e enunciados duros e diretos foram entoados, silêncios carregados de sentido foram feitos. Além de cartazes e faixas, os próprios corpos foram transformados em suporte à manifestação. Um momento que expressou com força que a luta a favor do “Não” é sempre luta a favor de muitos “Sim”, ainda que o primeiro tenha sido retumbante e os outros estejam ainda a ser expressos. A potência de agir que o Não mobiliza, na verdade, é carregada de sim. Pois ela não revela o negativo, pelo contrário.

Havia muitos afetos circulando e circuitando nas várias dinâmicas que foram se estabelecendo. Eles eram reveladores da potência que caracteriza os atos humanos da melhor estirpe. As trocas de afeto foram tais que as potências de agir foram aumentadas e estimuladas, não diminuídas nem refreadas (Spinoza, Ética, Parte III, def. 3, 2015, p. 98). A alegria foi o afeto mais mobilizado. E ela é a passagem para uma “perfeição maior” (Spinoza, Ética, Parte III, prop. 11, 2015, p. 107). O “contentamento” afetava a todas as partes de todos/as os/as participantes. E, como a alegria é um dos três afetos primários (junto com ela seu oposto, a tristeza, e o desejo), a potência de ação por ela foi para aumentar, estimular, abrir para a “perfeição maior”. Ora, o afeto da alegria significa “passagem do homem de uma perfeição menor para uma perfeição maior” (Ética, Parte III, def. 3, 2015, p. 141) e, sendo “passagem”, como explica Spinoza, não se trata de confundir a alegria com a própria perfeição, pois ela “não é a própria perfeição”, pois se um já nascesse com a alegria perfeita, não precisaria ser afetado por ela. Os demais afetos secundários a alegria são a admiração, o amor, a adoração, a esperança, a segurança, o gáudio, o reconhecimento, a indignação, a consideração, a misericórdia, a satisfação, a glória. Talvez se pudesse, livremente, acrescentar à lista spinozana a sororidade, afeto tipicamente feminino.

É de esperar que os significados e as potências mobilizados/as sejam compreendidos/as e internalizados/as pelos/as agentes da luta e da organização social, pelos/as agentes políticos, enfim, por aqueles/as que fazem ação política cotidiana, de modo que aprendam que a potência que há nas ruas não está disponível para ser domesticada por quem quer que seja, que os futuros outros abertos por ela não são ajustáveis a cálculos pragmáticos eleitorais e que as chances abertas para a política como forma-de-vida humana vêm para humanizar os/as humanos/as. A agenda política aberta neste sábado ultrapassa o imediatismo das disputas eleitorais e eleitoreiras que se apequenaram diante da volúpia que transbordou pelas ruas. Nem a matemática interesseira dos gestores da ordem se encorajou a absorver o real presente nas multitudinárias experiências e nas diversas formas que se contam certamente aos milhões, ainda que relativas sejam as quantidades, pois o que expressaram é mais um “ser mais” do que ter mais.
As manifestações deste sábado sugerem muito para a vida política daqueles/as que acreditam na democracia. Especialmente os que nela creem não como um mecanismo instrumental para tomar decisões de ocasião, que já é bem melhor do que qualquer outra forma de tomar decisões coletivas. A democracia apontada nas manifestações é aquela entendida como uma forma-de-vida que exige superar todos os mais e os menos graves processos de exclusão, de excisão e de dominação em nome da liberdade e da igualdade, a fim de fazer emergir a convivência como construção de direitos – e não como mera institucionalização do Direito – que vão sendo feitos contra todos os privilégios, sempre em nome da potência que se refaz cotidiano-resistência. As manifestações apontam para a política como exercício de resistência, mais do que de poder, ainda que não sugira abdicar de exercer o poder de democraticamente de modos outros.

Assim, se podemos aprender desta maravilhosa experiência coletiva cuja marca é a alegria em sentido spinozano, então podemos nos animar a seguir fazendo organização popular e luta política. Cumpramos com todos as exigências do processo eleitoral sabendo que as responsabilidades que foram despertadas nos pedem muito mais do que votar bem, ainda que votar bem possa ajudar bastante a aproximar o que acreditamos dever ser do que efetivamente será. A primavera chegou e chegou como deve ser a primavera, floral, colorida, alegre... e polinizou a política. Àqueles/as muitos/as seguem insistindo em ver somente tons de cinza quando não a monotonia da tristeza que só serve para puxar para baixo, para o pior, nossos lamentos. Sigamos alegres e exercitemos a resistência, aprendendo das mulheres, à sororidade!

Em 01/10/2018

1 Com base em reportagem da BBC Brasil publicada em 30/09/2018 em www.bbc.com/portuguese/brasil-45700013 com o título “#EleNão: A manifestação histórica liderada por mulheres no Brasil vista por quatro ângulos”.


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