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Comunicação - Artigos de Opinião

O partido da escola sem partido é a estupidez humana


Ângelo Vitório Cenci
Professor PPG EDU UPF, doutor e pós-doutor em filosofia (angelovcenci@gmail.com)

 

Certa feita, Albert Einstein dissera haver somente duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas dissera também estar seguro apenas da infinitude da segunda. Einstein não foi apenas um cientista extraordinário, mas também um humanista preocupado com os grandes problemas que afetavam a humanidade no século XX. Foi um partidário da razão esclarecida e daquilo que hoje denomina-se, na própria legislação educacional brasileira, de valores humanos universalmente desejáveis, como a cooperação e a solidariedade humana.

Hodiernamente, quando atentamos para determinados fenômenos que se manifestam em diferentes níveis dos parlamentos Brasil afora, constata-se, à perfeição, a concretização da suspeita do gênio alemão sobre a segunda de suas alternativas. Vide, entre outros projetos, a cura gay, o estatuto da família e a escola sem partido. A lista poderia prosseguir e seria mais extensa. São coisas que mais parecem nos remeter à idade das trevas.

Os projetos de lei da “Escola sem partido” falam muito mais pelo que não explicitam do que pelo que expressam publicamente. Ideológicos que são, obviamente não podem fazê-lo. É evidente que a escola e a sala de aula não são espaços para proselitismo político-partidário. Essa não é e nunca foi a finalidade da escola. Os defensores de tais projetos sabem bem disso, mas não é esse o seu ponto e aí reside o engodo. Visam, genericamente, combater ideologias, mas o que seus projetos escondem traduz o sentido mais elementar de ideologia, o de ocultamento de aspectos da realidade. Tais projetos, pois, falam muito mais pelo que escondem do que pelo que supostamente pretendem combater.

No caso, o que está em questão afeta a postura dos educadores e o papel da escola na forma de censura da reflexão de questões fundamentais à formação de um ser humano. Trata-se de coisas que muitos legisladores brasileiros – assim como seus seguidores – parecem ter dificuldades de compreender. Até porque compreender a realidade e a natureza dos processos pedagógicos pressupõe o domínio e a disposição do exercício de determinadas habilidades fundamentais de ordem lógica, cognitiva e ética. Não deixa de ser elucidativo o fato de um dos deputados defensores da famigerada lei ter feito panfletagem partidária em uma escola logo após ter ido até ela defender seu projeto de “Escola sem partido”. Seu partido? O mesmo que hoje é herdeiro direto da antiga ARENA que sustentou ideologicamente a ditadura militar.

Vale destacar que Hannah Arendt, em seu livro As origens do totalitarismo, afirmara ser próprio da compreensão pré-fascista da realidade o enfraquecimento de todo trato lógico com ela. Elementos pré-fascistas aparecem em tais projetos em aspectos como um tipo de propaganda de fácil apelo e assimilação social, no estímulo ao conformismo docente e discente com a realidade e na censura de um tipo de reflexão que permite a um ser humano aprender a ler o mundo em que vive.

Esses elementos pré-fascistas são potencializados, no contexto em que tais projetos são formulados, por ser este caracterizado socioeconomicamente pelo governo da plutocracia, por movimentos sociais fascistoides, pela naturalização da desigualdade social, pela corrupção institucionalizada, por um sistema político apodrecido e descolado da sociedade e por uma educação cada vez mais fragilizada. No campo educacional, dentre outros aspectos, é marcado pela redução drástica de verbas, pela precarização do trabalho docente e da instituição escolar e pela patológica juridificação dos processos educativos. Juridificar tais processos como o quer a “Escola sem partido” é o mesmo que atropelar e matar o bom senso pedagógico sem lhe prestar nenhum socorro.

Por uma questão de dever e de ofício, suas excelências defensoras da “Escola sem partido”, se estiverem realmente preocupadas com a educação e com o problema da suposta partidarização da escola, poderiam começar tomando honestamente partido por ela e pela educação. Einstein tinha mesmo razão em sua suspeita: não é demais lembrar que, no que diz respeito à estupidez, sua força é tanto maior quanto menor é a consciência que se tem dela ou, como escrevera Sêneca, a estupidez padece de seu próprio cansaço: Omnis stultitia laborat fastidio sui.

Publicado em www.ifibe.edu.br em 12/09/2016


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