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Comunicação - Artigos de Opinião

Política e Democracia: aproximação incômoda?


Iltomar Siviero
Dndo em Filosofia e Prof. no IFIBE

Historicamente a política e democracia estiveram ligadas diretamente. Desde os primórdios esteve na ocupação dos filósofos, sobretudo dos gregos, a quem se atribuí terem sido os pioneiros da introdução e da reflexão sobre a essência da política aliado à democracia. O tema ganhou notoriedade aliado ao conceito da Ágora, grande praça grega, local dos debates entre as pessoas públicas. Na praça se decidia os caminhos pelos quais a cidade deveria ser organizada e nela o grande vencedor chamava-se debate.

De lá para cá muito se andou, muitos caminhos foram trilhados pela política, ora sendo conduzida para o bem público, ora para interesses e fins estratégicos e instrumentais. Depois dos acontecimentos políticos do século XX que colocaram a própria humanidade em risco e, sobretudo, depois da tomada de espaços por regimes ditatoriais, pela globalização e pelo neoliberalismo como matrizes condutoras das máximas governamentais, arrisca-se o palpite em torno da crise e até do fim da política, justamente por ela estar sendo marcada por uma matriz econômica que atende aos interesses do Mercado, a mando do capital, esquecendo seu legado público e garantidor da participação de todas as pessoas indistintamente.

Essa situação vem se agravando e se infiltrando cada vez mais nas práticas de governo que, a mando do mercado, da economia, estão mudando os rumos e pactos, voltando-se mais a um projeto de poder e menos de perspectiva pública. Isso gera uma crise institucional da esfera política muito séria, a ponto dela cair no total descrédito e parece não haver mais luzes a incendiar nossas esperanças.

Frente a este cenário e com objetivo de resgatar a ideia de democracia como norteadora da política, muitas reflexões já foram feitas, a começar pela desmistificação de ideias do tipo “política é coisa dos eleitos, daqueles que elegemos para nos representar”. A população em geral tem procurado mostrar, sem temor, que os representantes que temos não nos representam, porque instauraram uma prática de negócio na política, prova cabal que se nota diante do volume de gastos em campanhas eleitorais, com média de 4,4 milhões por candidato ao pleito de deputado, governador e senador que, depois, se transforma em moeda de troca de favores.

Além destes dados espantosos, criou-se uma forma de participação que é inócua, pois os representantes do povo, depois de eleitos, fecham-se a quatro paredes e ainda exibem o contraditório slogan “casa do povo”. Fato curioso e em contraste com este slogan é que se lê no objetivo da Constituição Federal de 1988, que diz: “Garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, etnia, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. (...) e que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou DIRETAMENTE”. Embora assim esteja escrito, diga-se de passagem, não é de menor importância notar que a palavra diretamente sequer tem alguma relevância no modelo político atual.

Neste sentido, a construção de uma sociedade democrática no cenário atual exige, segundo pesquisadores influentes e cidadãos engajados uma reforma política ampla, que expanda a democracia nas suas distintas possibilidades: direta, representativa e participativa. Essa proposta está agora colocada para ampla consulta e debate nacional nos espaços de participação das redes, fóruns, partidos, movimentos sociais, eclesiais, populares, sindical e nos espaços acadêmicos, com objetivo de convocar a população brasileira a opinar por intermédio do Plebiscito Popular a ser realizado de 01 a 07 de setembro próximo. Inserir-se neste debate a fim de defender posicionamentos a favor ou contra, pode ser um passo em vista da recuperação do sentido da política e do começo da própria democracia.

Publicado em www.ifibe.edu.br em 11/07/2014


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